Imagens e sons de cada dia Imprimir
Seg, 18 de Novembro de 2019 16:57

Ima­gens e sons con­fi­gu­ram a memó­ria - ali­cer­ce de expe­riên­cias, arma­zém de valo­res e prin­cí­pios que sus­ten­tam a vida; arti­cu­lam as cone­xões que con­fi­gu­ram o teci­do ético-moral indis­pen­sá­vel no exer­cí­cio da cida­da­nia. Com ima­gens e sons o mundo se faz e se refaz, recom­põe-se e, tam­bém, lamen­ta­vel­men­te, se dete­rio­ra. Par­ti­cu­lar­men­te, a con­tem­po­ra­nei­da­de se estrei­ta entre os biná­rios das ima­gens e dos sons de cada dia. As ciên­cias espe­cia­li­za­das e seus pes­qui­sa­do­res aler­tam sobre as per­das e os ris­cos pro­vo­ca­dos pela forma de se rela­cio­nar com as ima­gens e os sons do dia a dia - que sus­ten­tam ou aba­lam expe­riên­cias. Uma sin­gu­la­ri­da­de inte­res­san­te no com­ple­xo âmbi­to das ima­gens é o afã na pro­du­ção de fotos. Obser­va-se que a faci­li­da­de tec­no­ló­gi­ca faz de todo mundo um fotó­gra­fo. Mui­tos se posi­cio­nam atrás da câme­ra para regis­trar deter­mi­na­dos momen­tos. E ao se dedi­ca­rem à cap­ta­ção da foto, per­dem a essên­cia do impor­tan­te regis­tro a ser feito pela memó­ria, fun­da­men­tal para sub­si­diar expe­riên­cias deter­mi­nan­tes.
É pre­ci­so ana­li­sar e cal­cu­lar as per­das quan­do não se vive expe­riên­cias e, con­se­quen­te­men­te, deixa-se de apreen­der ima­gens nas sinap­ses cere­brais, por prio­ri­zar a tare­fa de foto­gra­far. Com foco na câme­ra, o olhar pode não fazer o giro expe­rien­cial que pro­vo­ca novos enten­di­men­tos, com inci­dên­cias nas emo­ções, capa­zes de qua­li­fi­car as rela­ções huma­nas. Quan­do busca somen­te foto­gra­far, o ser huma­no faz regis­tros, mas arris­ca-se a per­der a opor­tu­ni­da­de de viver impor­tan­tes expe­riên­cias. E os pre­juí­zos, natu­ral­men­te, são mui­tos, pois a pri­va­ção da com­pe­tên­cia con­tem­pla­ti­va, indis­pen­sá­vel a todo pro­ces­so de cons­ti­tui­ção da inte­rio­ri­da­de, leva à perda da qua­li­da­de de vida.
A rica e com­ple­xa teia das ima­gens de cada dia ­requer con­tem­pla­ção. Do con­trá­rio, a vida passa a ser vivi­da "do lado de fora", sem ali­cer­ces inte­rio­res, o que cons­ti­tui o risco sui­ci­da da des­co­ne­xão com a rea­li­da­de - cer­ta­men­te, uma das ­razões do cres­ci­men­to de índi­ces sobre as desis­tên­cias de se viver. Outra con­se­quên­cia é a pri­ma­zia de certa super­fi­cia­li­da­de, quan­do se faz ainda mais neces­sá­ria uma sóli­da apti­dão huma­na para lidar com os mui­tos desa­fios con­tem­po­râ­neos. A con­tem­pla­ção é, pois, indis­pen­sá­vel para se alcan­çar as rique­zas con­du­zi­das pelas ima­gens de cada dia.
Faz-se neces­sá­rio apren­der a con­tem­plar para que as incal­cu­lá­veis ima­gens de cada dia, nos mui­tos cená­rios que com­põem a jor­na­da da huma­ni­da­de, se des­do­brem em sabe­do­ria de vida, na com­pe­tên­cia para dis­cer­ni­men­tos e na pro­du­ção do sen­ti­do que ali­men­ta o viver. No edu­ca­ti­vo e amplo hori­zon­te da eco­lo­gia inte­gral, com indi­ca­ções para o civi­li­za­do tra­ta­men­to da Casa Comum, está incluí­da a orien­ta­ção de reco­nhe­cer a Cria­ção na bele­za sin­gu­lar da natu­re­za - o desen­vol­vi­men­to de um olhar con­tem­pla­ti­vo. Trata-se de opor­tu­ni­da­de para se qua­li­fi­car na arte que pro­duz sen­ti­do para amar e viver. Ins­cre­ve-se tam­bém na dinâ­mi­ca dessa con­tem­pla­ção a apren­di­za­gem para lidar com sons - ouvi-los e pro­du­zi-los. Preo­cu­pan­te é a pato­ló­gi­ca pro­du­ção de baru­lhos que, cer­ta­men­te, escon­dem, ou ao menos dis­far­çam, ansie­da­des e angús­tias. Geram cer­tas ilu­sões, a par­tir de sen­sa­ções, mas são inca­pa­zes de supe­rar o vazio exis­ten­cial.
O mundo con­tem­po­râ­neo é palco de mui­tos sons que, na ver­da­de, são baru­lhos, cau­sam per­tur­ba­ção e são ­sinais de pouca civi­li­da­de. Esses ruí­dos mui­tas vezes atra­pa­lham o encon­tro de ver­da­des que só se reve­lam no indis­pen­sá­vel silên­cio para o exer­cí­cio da escu­ta. A humil­da­de na ava­lia­ção pes­soal e fami­liar, tam­bém na vida em socie­da­de, per­mi­te cal­cu­lar os com­pro­me­ti­men­tos resul­tan­tes dos equí­vo­cos nas for­mas de lidar com ima­gens e sons. Ver muito e enxer­gar pouco, con­vi­ver com polui­ção sono­ra e ser inca­paz de escu­tar são con­se­quên­cias.
Essa ina­de­qua­da rela­ção com sons e ima­gens con­tri­bui para con­so­li­dar indi­fe­ren­ças dian­te de gra­ves situa­ções, a exem­plo de cená­rios em que pes­soas esban­jam os bens, têm ­demais, e até por isso adoe­cem, enquan­to tan­tas ­outras, feri­das em sua dig­ni­da­de, vivem de miga­lhas. A inca­pa­ci­da­de para lidar com ima­gens e sons ajuda a per­pe­tuar, desse modo, injus­ti­ças ­sociais e desi­gual­da­des. Por tudo isso, vale inves­tir na apren­di­za­gem da con­tem­pla­ção, impor­tan­te cami­nho na qua­li­fi­ca­ção huma­na, espi­ri­tual e cida­dã.

Dom Wal­mor Oli­vei­ra de Aze­ve­do - Arce­bis­po metro­po­li­ta­no de Belo Hori­zon­te