À espera da vida PDF Imprimir E-mail
Ter, 08 de Outubro de 2019 19:28

Sua cor­ri­da é con­tra a vida, lenta, per­sis­ten­te, deva­gar, para não se can­sar. Além da espe­ra e da espe­ran­ça, quase nada tem a fazer
Per­di­da em um bair­ro lon­gín­quo de Con­ta­gem, final­men­te che­guei à casa onde mora­vam o garo­to Viní­cius e sua mãe. Vinte anos de idade res­guar­da­dos num corpo fran­zi­no e deli­ca­do, mar­ca­do pela doen­ça nos rins, que não fun­cio­nam, e pelo aces­so, onde, três vezes por sema­na, uma hemo­diá­li­se é feita. Três anos na fila de espe­ra por um trans­plan­te. Moci­da­de sem jogar bola, sem poder via­jar com ami­gos, sem andar de bici­cle­ta, sem cor­rer atrás das opor­tu­ni­da­des que o mundo ofe­re­ce aos ­jovens. Sua cor­ri­da é con­tra a vida, lenta, per­sis­ten­te, deva­gar, para não se can­sar. Além da espe­ra e da espe­ran­ça, quase nada tem a fazer.
Levo comi­go um note­book novo, embru­lha­do em papel colo­ri­do. Den­tro dele, um mundo a ser des­co­ber­to. Será o com­pa­nhei­ro mais cons­tan­te, inclu­si­ve no hos­pi­tal São José, duran­te as qua­tro horas segui­das de tra­ta­men­to, três vezes na sema­na. Ali, pode­rá jogar paciên­cia, Free­Cell, con­ta­tar ami­gos no Face­book, ler notí­cias do pla­ne­ta intei­ro, expan­dir o seu peque­no mundo.
- Um dia che­ga­rá a sua vez! - digo ao me des­pe­dir do garo­to fran­zi­no que, com as mãos trê­mu­las, acena para mim.
Ontem, foram à minha casa avi­sar:
- Lau­ri­nha! ­Marião fez trans­plan­te, já vol­tou para casa e está pre­ci­san­do de ajuda.
Uma grata sur­pre­sa saber que a minha velha amiga, aco­me­ti­da por doen­ça de Cha­gas, teve a chan­ce de renas­cer. Enquan­to me diri­gia à sua casa, vol­ta­va no tempo, quan­do a conhe­ci. Na época, mora­do­ra de um assen­ta­men­to de terra, debai­xo de uma lona preta, ela já exer­cia sua lide­ran­ça. Tra­ba­lha­do­ra incan­sá­vel, cozi­nhei­ra de mão-cheia em resi­dên­cias, res­tau­ran­tes e uma casa de apoio a soro­po­si­ti­vos... Além do tra­ba­lho remu­ne­ra­do, o comu­ni­tá­rio, sem­pre à fren­te nas cau­sas que defen­dia. O sor­ri­so largo é sua marca regis­tra­da. Vive rindo, mesmo dian­te das adver­si­da­des. Nunca perde a espe­ran­ça. E, quan­do a doen­ça se agra­vou, enca­mi­nha­da pelos médi­cos, ­entrou na lista do trans­plan­te. Mais de dois anos de espe­ra.
Enquan­to Vit­to­rio, meu mari­do, aguar­da­va por um fíga­do em São Paulo, ­Marião aguar­da­va por um cora­ção em BH. Dis­tan­tes, viven­cian­do o mesmo drama.
Na porta, sou aten­di­da por ­Gabriel, o caçu­la, com nome de anjo e cami­sa do Cru­zei­ro. Pede-me para pas­sar ­álcool nas mãos antes de ­entrar no quar­to da mãe. ­Marião me sorri como antes. Uma figu­ra essa ­mulher!, penso, diver­ti­da, ao encon­trá-la tão bem. Há um mês e meio trans­plan­ta­da, vem me mos­trar com orgu­lho a sua cica­triz, por onde reti­ra­ram seus males e intro­du­zi­ram a vida.
Fala-me com admi­ra­ção e cari­nho dos médi­cos que tão bem a acom­pa­nha­ram. Conta das difi­cul­da­des de um hos­pi­tal que vive sua luta diá­ria a favor da vida, da falta de san­gue que difi­cul­ta cirur­gias, dos ­pobres vin­dos do inte­rior, sem ter onde ficar, das cadei­ras frias e cor­re­do­res tris­tes, onde per­ma­ne­cem os acom­pa­nhan­tes, mas fala, acima de tudo, da obs­ti­na­ção, da com­pe­tên­cia e do impres­cin­dí­vel valor huma­no que encon­trou ali, no Hos­pi­tal das Clí­ni­cas, onde nas­ceu de novo.
Agora feliz, agra­de­ce todos os dias a Deus, aos médi­cos e enfer­mei­ros e, prin­ci­pal­men­te, ao doa­dor e seus fami­lia­res. Doa­dor que, além da dela, sal­vou mais três vidas. Tam­bém agra­de­ce aos doa­do­res de san­gue.
- Eu pre­ci­sei de muito san­gue, sabia? - ela me diz, emo­cio­na­da.
Tento fazer com que se cale um pouco. O esfor­ço da fala ainda a cansa. ­Gabriel me chama para comer o bolo que ele fez. Nos últi­mos anos, cui­dou da mãe como uma mãe cui­da­ria de um filho. Treze anos ape­nas e tama­nha res­pon­sa­bi­li­da­de. Conta-me das noi­tes sem dor­mir, das madru­ga­das ligan­do para o Samu, acom­pa­nhan­do a mãe ao hos­pi­tal, do fei­jão com arroz que apren­deu a fazer, dos remé­dios con­tro­la­dos que não deixa de dar nos horá­rios cer­tos. Olhan­do para aque­le meni­no, vejo que o anjo não está ape­nas no nome que car­re­ga.
Des­pe­ço-me com um sor­ri­so largo, que nem o da ­Marião. Nas mãos, levo uma forma gigan­te com pudim de leite, pre­sen­te do ­Gabriel.
E lem­bro-me, então, daque­le garo­to cario­ca que se trans­fe­riu para São Paulo e ficou dois anos resi­din­do num hos­pi­tal, longe da famí­lia, à espe­ra de um cora­ção. E que, numa entre­vis­ta, soli­ci­ta­do a dei­xar uma men­sa­gem, com os olhos lacri­me­jan­tes, disse:
- Pior que per­der uma vida é per­der duas.
No últi­mo dia 27 foi come­mo­ra­do o Dia Nacio­nal do Trans­plan­te. Sete anos se pas­sa­ram desde quan­do escre­vi esta crô­ni­ca. Quis repu­bli­cá-la por­que conhe­ço de perto a angús­tia e o sofri­men­to de quem espe­ra por uma nova vida.
Desde o dia em que o Vit­to­rio foi trans­plan­ta­do, acen­do uma vela para o seu doa­dor, que, cari­nho­sa­men­te, chamo de "meu amigo". Agra­de­ço a ele e aos seus fami­lia­res por terem dado não ape­nas ao Vit­to­rio, mas a ­outras pes­soas, a chan­ce de viver.
Minha gra­ti­dão será eter­na. Hoje, Vit­to­rio, como pre­fei­to de uma gran­de cida­de, sem ­nenhum tipo de remu­ne­ra­ção, dedi­ca seu tempo e seu tra­ba­lho empe­nha­do em ame­ni­zar os sofri­men­tos, prin­ci­pal­men­te daque­la popu­la­ção mais caren­te. E, assim, vai cum­prin­do o que acre­di­ta ser a sua mis­são, nessa segun­da vida que Deus lhe deu..

Laura Medioli - Colunista