Só podia ser mulher, uma ova! PDF Imprimir E-mail
Sex, 01 de Fevereiro de 2019 17:13

Li nos jor­nais que uma moto­ris­ta, ao mano­brar no esta­cio­na­men­to de um super­mer­ca­do, atra­ves­sou o muro do recin­to com uma parte de seu carro. O caso foi parar nas redes ­sociais e, pelo fato de ter acon­te­ci­do com uma ­mulher, logo, logo virou piada, segui­da da velha frase: "Só podia ser ­mulher".
Con­fes­so que mano­bras nunca foram o meu forte, detes­to fazer bali­za. Se a vaga dis­po­ní­vel for peque­na, pre­fi­ro dar vol­tas a ter que ficar ali, numa série de idas e vin­das, lendo o pen­sa­men­to de quem assis­te do lado de fora: "Apos­to que é ­mulher...".
Con­cor­do que, às vezes, faze­mos coi­sas inu­si­ta­das, como aque­la moto­ris­ta do Triân­gu­lo Minei­ro que foi ao posto abas­te­cer e, dis­traí­da, arran­cou o carro antes da hora, levan­do a bomba junto, para o deses­pe­ro do fren­tis­ta, que, aos ber­ros, cor­ria atrás. Por pouco, não cau­sou uma tra­gé­dia. Na época, ao ver a foto da bomba caída na capa do jor­nal O TEMPO, pen­sei: "Ai, Deus! Espe­ro que não seja ­mulher!". Infe­liz­men­te, era.
É sabi­do que car­re­ga­mos o estig­ma de ser­mos con­si­de­ra­das más moto­ris­tas, "roda dura" e adje­ti­vos tão pejo­ra­ti­vos quan­to. O que é total­men­te falso. Somos mais aten­tas, cui­da­do­sas, não faze­mos lou­cu­ras no volan­te nem temos o cos­tu­me de sair ace­le­ra­da­men­te, dis­pu­tan­do o espa­ço nas ruas com um irres­pon­sá­vel.
Esta­tis­ti­ca­men­te, nos envol­ve­mos bem menos em aci­den­tes no trân­si­to que os ­homens. De acor­do com as segu­ra­do­ras, "o índi­ce de sinis­tra­li­da­de das mulhe­res é muito menor quan­do com­pa­ra­do aos índi­ces medi­dos para os con­du­to­res do gêne­ro mas­cu­li­no. E, quan­do há coli­são, a seve­ri­da­de desta é sem­pre menor por­que, na maio­ria dos casos, as mulhe­res res­pei­tam os limi­tes de velo­ci­da­de". Pois é. Estão vendo?
Certa vez, a conhe­ci­da frase me per­se­guiu. Isso na hora do rush, quan­do, com o carro pifa­do, levei mais de duas horas para ten­tar che­gar a um com­pro­mis­so que, devi­do às cir­cuns­tân­cias, aca­bei des­mar­can­do. Não me per­gun­tem o que acon­te­ceu para que o carro, do nada, des­li­gas­se. Sim­ples­men­te "apa­ga­va", mesmo man­ten­do a ace­le­ra­ção cons­tan­te, o ar-con­di­cio­na­do des­li­ga­do ou qual­quer outra coisa que pudes­se inter­fe­rir na potên­cia do motor.
Antes que a des­gra­ça fosse com­ple­ta, resol­vi parar e pegar um táxi. Mas, no meio da "muvu­ca" da ave­ni­da Afon­so Pena, encon­trar um lugar vago seria outra luta, para não dizer impos­sí­vel. O carro paran­do de dois em dois minu­tos, enquan­to eu obser­va­va, aten­ta, a tem­pe­ra­tu­ra. Para reli­gar o motor, era pre­ci­so des­li­gar os ­faróis. Ao virar a chave, uma ace­le­ra­da mais vigo­ro­sa, antes que mor­res­se nova­men­te. No auge do estres­se e do calor, abri o vidro, mos­tran­do minha cara aos moto­ris­tas ao lado, que me olha­vam, ora diver­ti­dos, ora pena­li­za­dos. "Tinha que ser...", pen­sa­vam, enquan­to os de trás, obri­ga­dos a frear, buzi­na­vam impa­cien­tes.
E foi no meio da praça Sete, entre Afon­so Pena e Ama­zo­nas, num trân­si­to infer­nal, que o guar­da me man­dou ace­le­rar. "Ace­le­rar como, meu filho?", inda­guei, ner­vo­sa. Vi o carro paran­do de vez e pen­sei seria­men­te em aban­do­ná-lo ali. O homem insis­tia no apito, enquan­to eu, sozi­nha no cru­za­men­to, ten­ta­va reli­gar o motor. Quase ponho fogo na coisa, mas ­fiquei ali­via­da ao vê-lo par­tir a 15 km/h.
Por dois dias, ten­ta­ram des­co­brir a causa do pro­ble­ma. De uma coisa tenho cer­te­za: o pro­ble­ma não esta­va entre o banco e o volan­te. Posso ser tudo, menos uma má moto­ris­ta. E fico indig­na­da com o sim­ples fato de que ser ­mulher nos leva a ser­mos víti­mas de pre­con­cei­to. Tal­vez nos fal­tem ­alguns conhe­ci­men­tos téc­ni­cos, que, com o tempo e a neces­si­da­de, aca­ba­mos adqui­rin­do.
Lem­bro-me de meu pri­mei­ro carro, um Fiat 147, que por muito pouco não incen­diei (tam­bém!). Nunca nin­guém tinha me avi­sa­do da neces­si­da­de de, vez ou outra, veri­fi­car o nível da água. Para bem dizer a ver­da­de, nem ­sequer sabia que car­ros pre­ci­sa­vam de água. Para mim, bas­ta­vam gaso­li­na e óleo.
E des­co­bri da pior manei­ra pos­sí­vel: no meio do trân­si­to, desa­pa­re­cen­do em meio à fuma­ça. "Deus do céu! O que é isso?", per­gun­tei assus­ta­da ao ­senhor que parou para me acu­dir. Abrin­do o capô, meu susto virou pâni­co. Pare­cia um vul­cão em erup­ção sain­do do motor incan­des­cen­te. A par­tir desse dia, nunca mais dei­xei de pôr água no reser­va­tó­rio e, quase invo­lun­ta­ria­men­te, dar uma espia­da na tem­pe­ra­tu­ra.
Lidar com o pri­mei­ro pneu fura­do tam­bém foi um hor­ror! Prin­ci­pal­men­te por me encon­trar em cima de um dos maio­res ele­va­dos da cida­de, empa­can­do o trân­si­to, até sur­gir um moto­ris­ta solí­ci­to e gen­til, pron­ti­fi­can­do-se a me socor­rer. Enfim, "peque­nos gran­des" pro­ble­mas que, hoje, solu­cio­na­ria sem pâni­co e sem estres­se. Com algu­mas exce­ções, claro.!

Laura Medioli - Colunista